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A moça que não vê, mas enxerga a alma das pessoas

Por: Graça Suleiman*
Verena de Lima Amaral é uma moça linda de 28 anos. O primeiro programa que fizemos juntas, foi no Momento da Graça Mais Santos, há um ano atrás, foi muito emocionante! Semana passada, recebi uma mensagem de Verena, onde dizia que na festa de comemoração de 75 anos do Lar das Moças Cegas, ela foi entrevistada pelo programa JB! Portanto, nada mais justo do que reportar à vocês, a linda entrevista que ela me concedeu; no intuito de compartilhar o que a fé, a determinação e o amor podem fazer por uma vida!
Eu, Verena, tive uma perda visual gradativa em 2008. A vista direita, com 18 anos, no primeiro ano de faculdade, foi perdida. Em quinze dias, tudo ficou preto! Eu já possuía um grau de miopia e astigmatismo bem altos. Eram cinco graus na vista esquerda, mas fui empurrando com a barriga… Em 2009 e 2010, continuou do mesmo jeito, estava com baixa visão, em 10%. Então, tentei realizar aplicações de laser, porém o médico foi categórico. Não havia solução, pois eu, segundo ele, havia tido uma hemorragia.
Quando saímos do médico, minha mãe e eu, tristíssimas e desiludidas, resolvemos ir no culto da Igreja Mundial, o que foi uma benção! Quando chegamos lá, pedimos por oração e antes mesmo do culto acabar, estava enxergando. Não perfeitamente, mas o suficiente para me locomover e ler.
No ano seguinte, 2010, fiquei me recuperando, em vista deste grande milagre que havia acontecido. Porém, em janeiro de 2011, no último ano da faculdade, minha visão começou a declinar, como está até hoje, tenho catarata nos dois olhos e descolamento de retina. O que me dificultou a ler as teclas do computador, necessitando até de lupa.
Desta forma, o ano de 2011, foi complicado. Estudei graças ao auxílio de minha mãe e colegas, pois não conseguia enxergar nada. E como não havia feito o curso de locomoção com a bengala, ia com minha mãe de van. Porém, o trabalho de conclusão do curso, exigia muita leitura e escrita, um problema enorme e um redemoinho de sustos para mim! Não tive condições de me reabilitar e não me formei.
Nessa época, fui à Campinas, num grande hospital, referência internacional e nacional de olhos: Penido Burnier. Lá fiz vários exames de ultrassom, os quais ajudaram o médico a decretar que eu estava com a retina descolada, amassada e toda ferida. E que a chance de eu voltar a enxergar era tão mínima que não valia à pena e o pior; apesar de ser cega, conseguia ver uma claridade no olho esquerdo, o que me dava noção se era dia ou não. E de acordo com o médico, também poderia perder isto.
Com relação ao trabalho de conclusão do curso, minhas amigas opinaram que eu deveria fazer parte de qualquer grupo, independente das minhas idéias de trabalho, pois em grupo, poderia facilitar e eu poderia me formar, finalmente. Mas não estava nem um pouco confortável de fazer o TCC sobre o Lar das Moças Cegas; não me sentia preparada psicologicamente para conviver, falar, fazer reportagens com pessoas que estavam como eu, péssimas, com a  autoestima bem baixa.
Queria fazer o TCC, sobre o humor no Jornalismo, pois naquela época, ainda existia o programa CQC, e eu me identificava. Minhas amigas, Maíra e Bruna fizeram sobre o Lar e ainda dedicaram à mim. Pensando nisso, resolvi me preparar, respirar e tirar um tempo para me habilitar para o próximo ano, que foi um horror, os piores anos da minha vida. Tristes, pesados pois além de não saber andar, estava sem celular, sem computador e até sem chave de casa. Porque se não enxergava, não podia fazer nada que fazia quando eu enxergava.
Neste momento, Deus começou a operar em minha vida. E eu resolvi que estava com sobrepeso e iria fazer diariamente uma hora de bicicleta. E fui começando a ficar mais disposta. Também aprendi uma grande lição: aprendi a perdoar, limpar meu coração, deixar ir o passado, a fim de que pudesse entregar a minha vida por inteiro à Deus.
No começo de 2013, meu avô veio morar conosco, foi uma benção! Ele era totalmente descrente e eu resolvi fazê-lo acreditar, acho que naquele momento, era a minha missão. E que bacana, consegui, ficou super temente à Deus e tudo que falava colocava ele no meio. Um ano depois e dois meses antes de eu ingressar no Lar das Moças Cegas, ele nos deixou, mas muito bem e com muita fé!
Esta fase foi muito boa para mim, pois fui me aceitando e esta aceitação foi fundamental, para poder absorver tudo de bom que me esperava no Lar das Moças Cegas. Quando colocamos a vida nas mãos de Deus, podemos estar com problemas, mesmo assim com o exercício da fé, ele nos conduzirá à uma grande coisa que iremos receber lá na frente! A imagem que temos de um Lar das Moças Cegas é totalmente distorcida! É um lugar que eu estive como aluna, primeiramente e agora, como telefonista e também ajudante na parte de comunicação.
É um lugar formidável, que você pode interagir com crianças, jovens, maridos, esposas e saber de tudo e de todos, de uma forma muito boa. Pois a função do jornalista, é ser observador, juntar histórias e produzir alegria. Adquiri informática, mobilidade de bengala, participo de corais e cursei telefonia. Em outubro, completarei três anos como funcionária.
E quanto a beleza, que mencionamos em nossa conversa, não foi uma coisa que eu queria, ou que forcei para acontecer, o meu interior foi aos poucos se refletindo na minha imagem. Tudo foi mudando, por causa de Jesus, a musculação que faço, a maquiagem, as roupas, o cuidado com os cabelos. Isto tudo porque acho que a minha obrigação, é mostrar que os cegos, com todas as suas limitações podem ser pessoas bonitas, alegres e felizes.
Quanto ao meu TCC, quero falar de muita coisa. Me perguntaram porque não faço sobre deficiência visual. Porque serei mais uma cega a falar sobre cegueira? Quero falar de muita coisa, moda, cinema, arte e etc. E sendo assim, optei por fazer uma análise de discurso da imprensa em relação às campanhas políticas de Enéas Carneiro. O que é muito polêmico e difícil. Mas gosto de assuntos vibrantes e que sejam vibrantes. O assunto tem que girar, tem que haver energia, dinâmica.
Meu conselho para todos vocês, que tiver quaisquer dificuldades, é entregar à Deus. Pode ser angústia, sonho, tristeza, pedidos. Ele estará sempre pronto a cuidar dos seus. Pois o pai nunca desampara os seus filhos!

*Maria da Graça Rennó de Oliveira Suleiman é blogueira e jornalista profissional diplomada pela FIAM.

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