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Edição do Mês

Na década de 1960, depois de ler a obra premiada de Carolina Maria de Jesus – “Quarto de Despejo” – Joana Josefina Evaristo também se animou em registrar num diário, desde simples pensamentos, ocorrências familiares e tarefas domésticas. A mãe de Conceição Evaristo não sabia, mas começava alí o incrível gosto pela escrita que igualmente iria inspirar a filha, hoje apontada como uma das vozes mais marcantes de literatura brasileira contemporânea.
Segunda filha mais velha de nove irmãos, Conceição – traçando uma linha ancestral – estabeleceu um fio condutor carregado de afeto com as memórias da avó e da mãe e que, com a ternura com que trata a filha única Ainá, reforçou seu lado mais verdadeiro e sensível. “Ela é meu poema mais bonito”, definiu certa vez. Ainá, hoje com 45 anos, ao nascer recebeu diagnóstico médico pessimista sobre o seu desenvolvimento, que acabou resultando em baixa visão.
“Minha infância foi a de uma família que tinha consciência sobre a questão racial. Não era elaborada em termos teóricos, mas a própria contação de histórias sobre a escravidão, a prepotência dos brancos sobre os sujeitos escravizados, isso já era um indicativo, um conhecimento”, diz Conceição. A escritora cresceu em Belo Horizonte, estudou em escola pública de classe média.