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Miriam Freitas

Com vozes de Naruna Costa, Antônio Fagundes, Mateus Solano e Paolla Oliveira, o longa de animação brasileira imagina a criação da câmera fotográfica por um jovem negro no Brasil de 1830 e aborda memória, resistência negra e o poder da arte na transformação social.

E se a fotografia tivesse sido inventada por um jovem africano no Brasil escravocrata? A partir desse cenário, “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” constrói uma ficção histórica ambientada em 1830, na qual uma invenção capaz de registrar imagens também se torna instrumento de resistência e luta pela liberdade de pessoas escravizadas.

O longa-metragem brasileiro de animação 2D utiliza a fantasia para revisitar um dos períodos maismarcantes da história do país e imaginar outros caminhos para o nosso passado. Dirigido e roteirizado por Brenda Lígia o filme acompanha Amadeo, um jovem cientista africano que cria uma câmera fotográfica. A partir dessa invenção, o personagem encontra uma maneira de transformar a fotografia em instrumento de resistência e de luta pela liberdade de pessoas escravizadas.

Mais do que uma aventura ambientada no século XIX, a produção propõe uma reflexão sobre memória, representatividade e o poder das artes de transformar a maneira como uma sociedade conta sua própria história. Ao colocar um personagem negro à frente de uma potente invenção, a animação questiona narrativas tradicionais e imagina outras possibilidades de olhar para o passado brasileiro.

Cineasta afrodescendente, Brenda Lígia imprime à obra um olhar sensível sobre o protagonismo e as vivências da população negra. Amadeo é apresentado fora das narrativas frequentemente associadas a personagens negros no cinema, muitas vezes marcadas pelo sofrimento e pela superação da opressão. Sua trajetória é conduzida pela curiosidade, pelo conhecimento, pela criatividade e pela genialidade, colocando em primeiro plano suas potencialidades e sua capacidade de transformar a realidade ao seu redor.

Nesse contexto, a fotografia ganha uma dimensão que vai além da inovação tecnológica. Em uma sociedade que negava às pessoas escravizadas direitos, reconhecimento e até mesmo o controle sobre suas próprias histórias, registrar uma imagem também representa uma forma de afirmar existências e construir memórias. Ao colocar a câmera nas mãos de Amadeo, o filme propõe uma inversão de perspectiva: aqueles que historicamente foram retratados pelo olhar de outras pessoas passam a ter a possibilidade de construir suas próprias representações.

Ao recorrer à animação e à ficção, Brenda Lígia também explora o potencial da arte como espaço de expressão e questionamento. A produção utiliza uma história imaginada para provocar reflexões sobre as estruturas sociais do Brasil escravocrata e sobre a importância de reconhecer perspectivas que ficaram à margem dos registros históricos.

Esse aspecto também está presente na construção dos personagens e na escolha do elenco de vozes. A atriz Naruna Costa, que interpreta Linda, destaca a dimensão transformadora da narrativa e a perspectiva negra que atravessa a história. “A Linda é amável e é interessante porque ela é inconformada. O filme tem essa perspectiva de mudar o rumo das coisas. Achei muito inteligente da parte da Brenda trazer essa voz que tem essa perspectiva de revolução a partir de um pensamento negro de fato.

É uma história de muitas conquistas e muitos renascimentos”, comenta a atriz. O elenco de vozes originais reúne artistas de diferentes gerações e trajetórias, como Sérgio Menezes, Edmilson Filho, Naruna Costa, Paolla Oliveira, Antônio Fagundes, Léa Garcia, Mateus Solano, Tiago Abravanel, Adriana Lessa, Igor Cotrim e Dexter – O Oitavo Anjo, além da própria diretora Brenda Lígia.

Para Antônio Fagundes, o Barão, a experiência de interpretar um personagem em uma animação também permite explorar possibilidades diferentes das encontradas em outros trabalhos audiovisuais. “Eu adoro usar minha voz, ainda mais em uma animação, é muito mais divertido, porque você pode brincar com a voz, brincar com as expressões… eu me diverti muito nessas gravações”, conta.

Mateus Solano, que dá voz a Honório, também destaca a experiência de assistir ao resultado acompanhado dos filhos. O ator esteve presente em uma sessão especial ao ar livre durante o Festival do Rio, em outubro. “O filme é uma graça. Foi uma experiência única assistir com os meus filhos, ao ar livre… eles adoraram, eu adorei. Foi muito bom ter feito o filme e participado do Festival do Rio. Parabéns à direção pelo trabalho, pela edição, pela mixagem… tudo lindo!”, declarou.

Para a diretora Brenda Lígia, que faz sua estreia no cinema de animação, a proposta é utilizar a sétima arte como ferramenta de reflexão sobre o passado e sobre as possibilidades de transformação da sociedade.

“Participar de Amadeo e o Hipotético Mundo Novo é fazer parte de uma obra que nos convida a questionar a história que nos contaram e imaginar outras possibilidades para o nosso país. O filme fala de reparação, memória e representatividade, trazendo para o centro da narrativa personagens e perspectivas historicamente silenciados. Acredito no cinema como ferramenta de transformação, e contar essa história é também um convite para refletirmos sobre o Brasil que construímos e aquele que ainda podemos construir”, destaca.

Aspas do filme pelo BNDES:

“Patrocinado pelo BNDES, Amadeo e o Hipotético Mundo Novo combina criatividade e cultura brasileira em uma narrativa original que convida o público a revisitar a história do país por novas perspectivas. O filme demonstra a capacidade do audiovisual nacional de abordar temas históricos e sociais por meio de linguagens inovadoras e promete atrair toda a família para as salas de cinema, enaltece Marina Moreira, superintendente da Área de Relacionamento, Marketing e Cultura do BNDES”

A animação estreou mundialmente na mostra competitiva do 28º Festival Internacional de Cinema de Xangai, na China, em junho de 2026, e seguiu sua trajetória por importantes eventos cinematográficos, entre eles o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o Festival do Rio e a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Também integrou a programação da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis e do Festival Internacional de Cinema de Tóquio. Após a circulação internacional e a participação em importantes festivais brasileiros, o longa chega às salas de cinema em 3 de dezembro, com lançamento inicial previsto em Recife, Caruaru, Fortaleza, Goiânia, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.

A direção e o roteiro são de Brenda Lígia A direção de arte e animação é de Everton Amorim, responsável pela construção visual do universo da história em animação 2D. A trilha sonora original é de Guilherme Picolo, que contribui para a ambientação e a dimensão emocional da narrativa, O cineasta Edu Felistoque, além de produzir assina a história original e a dramaturgia do longa “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” é realizado pelo Sagui Studi e Refúgio Onírico, e produzido pela Felistoque Cinema, em coprodução com Sol de Barros, Assum Filmes, Martinelli Filmes, Guarnicê Produções e Dream Box. A distribuição é da Downtown Filmes.

O projeto conta com patrocínio do BNDES, apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (SECEC-DF) e realização do Governo do Distrito Federal, por meio da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Sinopse

Amadeo é um jovem cientista africano sensível e genial que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus. Tudo sobre sua invenção seria mais fácil e maravilhoso se não tivesse acontecido em 1830, no Brasil — o último país das Américas a abolir a escravidão. Amadeo nutre uma paixão proibida por Linda, uma jovem branca idealista apaixonada pela ciência e pela arte.

Para aliviar as dores desse amor que se torna impossível, ele se dedica ainda mais ao desenvolvimento da câmera fotográfica que se transforma em instrumento de registro da resistência e de luta pela liberdade de pessoas escravizadas.