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A empatia e o cancelamento dentro e fora do reality

Em dia de eliminação, o especialista educador, palestrante e mentor de Mindset de Alta Performance, Lucas Fonseca comenta sobre a falta de empatia dentro e fora da casa. A 21ª edição do Big Brother Brasil já agitou as redes sociais com diversos comentários relacionados ao cancelamento digital. O especialista falou um pouco sobre Ele ainda reforça sobre um outro ponto importante: todos nós temos o Eu real e o Eu Social. Eu real é a pessoa que verdadeiramente somos, a forma que agimos e enxergamos a vida. Eu social é um papel de atuação que criamos perante a sociedade, dentro do molde dos bons costumes, regras e etiquetas. Contudo, em um reality é difícil sustentar o “eu social”, por isso a surpresa de muitas pessoas com certas atitudes.

1. Por que é tão importante criar e saber quando usar o “eu social” e o ”eu real”?
Primeiro, é importante ressaltar que o ‘eu real’ é quem realmente nós somos, sentimentos que experimentamos e a forma que nós funcionamos. O ‘eu social’ é uma espécie de comportamento que nós criamos perante a sociedade. Por mais que alguém fala assim “ah, eu não vivo sobre regras”, “eu funciono da mesma forma comigo e com as pessoas”, é mentira! Todos nós temos o “eu social”, nem sempre falamos tudo que pensamos, externamos tudo o que sentimos, e nos posicionamos da forma que deveríamos nos posicionar. Então, por isso é tão importante descobrir como funcionamos e saber diferenciar o ‘eu social’ e o ‘eu real’, é importante se questionar: “como eu funciono?”, “quais sentimentos eu não tenho dado importância?”, “qual é a minha verdadeira essência?”. E aí é que está o grande desafio, quando nos vemos em situações de vulnerabilidade, o que vem à tona é o ‘eu real’, e esse ‘eu real’ na grande maioria das vezes assusta as pessoas, porque obviamente, estamos sempre apresentando o ‘eu social’.

2. Acha que o que mais vem prejudicando a Karol dentro do programa, foi o fato dela ter construindo a carreira dela a partir de pautas importantes? Assim, fazendo ela mostrar apenas seu ”eu social”?
Certamente o que mais prejudica a Karol dentro do programa, é exatamente o fato de as pessoas conhecerem somente o ‘eu social’ dela. Ela como militante, se posicionando brilhantemente por várias vezes, quem de nós nunca a aplaudimos em alguma fala ou algum comportamento? Isso é o que conhecemos dela antes do BBB, a Karol social, quando ela vai para o programa ela se apresenta como ela realmente é, e as pessoas não estão prontas para isso. Eu sempre falo, cuidado com quem levanta a bandeira, porque ele esquece de ser a sua própria bandeira! Como seria se ao invés de levantarmos bandeiras, fôssemos a nossa própria bandeira? A nossa própria bandeira é assumir para as pessoas o que nós acreditamos, o que nós defendemos, mas mostrar também quem nós realmente somos, a partir dos nossos defeitos, da nossa fragilidade. Então, alguém que vive somente se posicionando em uma pauta social, quando ela se vê em uma pauta em que as pessoas olham para o ser humano e não para causa que ela representa, dificilmente vai ter a mesma conexão com o público, porque o público tem uma tendência muito grande em comprar aquilo que falamos, aquilo que realmente somos nem sempre as pessoas estão preparadas.

3. Como a vida de quem é cancelado é afetada? E das pessoas próximas?
Quando se fala em cancelamento social a partir de uma rede social, nem se compara ao tamanho do estrago que é um cancelamento exposto para milhões de pessoas, onde todo mundo está pautado e olhando para a pessoa cancelada. Quando acontece um cancelamento social a partir de uma rede social, por exemplo, nem todo mundo está na rede social, nem todo mundo segue aquela pessoa. Já um programa como a Karol está é diferente, o Brasil e o mundo está olhando para esse programa. Então, o pior sentimento que existe é o susto que a pessoa leva, a pessoa está lá dentro achando que está tudo normal, e quando ela chegar aqui fora, se ela não tiver um emocional muito bom ou se não buscar o apoio de pessoas, ela não vai conseguir se encontrar novamente, porque criou-se uma expectativa de que a pessoa vai para o programa para fortalecer a carreira, para investir, ter mais visibilidade e estar em evidência, quando sai aqui fora e está cancelado(a) é uma consequência muito grande. Vou dar um exemplo da Karol novamente, para as pessoas próximas talvez as consequências já estejam chegando, o próprio filho da artista está sentindo isso na pele, a própria equipe, as pessoas próximas sempre vão sentir quase tanto quanto a própria pessoa. Mas o susto maior, a consequência maior é da pessoa cancelada, quando Karol sair do programa e ver que a maioria das pessoas estão ‘odiando’ e ‘comprometendo’ cada vez mais sua imagem, é necessário ter muita Inteligência Emocional para sobreviver a isso.

4. O cancelamento reflete como na sociedade?
Com certeza o cancelamento reflete como nós, enquanto sociedade, vivemos! É muito mais confortável, mais simples, sentar em uma poltrona, onde quer que você esteja, e dar opiniões e pontos de vista sobre a vida do outro. O ser humano está muito mais preocupado com a vida do outro do que com a própria vida, o posicionamento que eu tenho é, ver uma sociedade que está muito mais pronta para julgar na cultura da viralização, você precisa viralizar algo ou você pode ser cancelado a qualquer momento, e isso traz muito à tona o ‘eu social’, que é o nosso tema. As pessoas vão se vendendo em prol dessa viralização, vão perdendo sua essência. Contudo, o cancelamento reflete sim, o comportamento de uma sociedade que está muito mais pronta para julgar, está o tempo todo olhando para grama do vizinho e esquecendo de cuidar da sua própria.

5. Muitas pessoas nas redes sociais reclamaram que estavam exaustadas e estressadas de assistir ao programa. Como os acontecimentos de dentro da casa podem afetar o público que assiste?
Essa reclamação das pessoas de estarem exaustas e estressadas ao assistirem o programa, se dá por alguns motivos, primeiro porque a realidade nua e crua está sendo mostrada, o Big Brother esse ano mostra para todos nós, como nós estamos pós-pandemia. Ou seja, todos mais vulneráveis, quem está lá dentro está ainda mais vulnerável, e quem está aqui fora menos tolerante. As pessoas estão com muito mais tempo para a internet, estão muito mais iradas com a sociedade e com tudo ao nosso redor. Então, essa exaustão e essa insatisfação, de olhar enquanto público e nem querer ver, é porque é uma realidade que não quer ser percebida, talvez aqui fora esteja pior do que lá dentro, talvez sejamos nós que estamos vivendo o pior Big Brother da história, onde as pessoas, a partir da pandemia, estão cada vez mais intolerantes, não estão olhando para elas mesmas, não estão exercendo a empatia, é como se essa ‘abstinência’ da convivência social fizesse com que nós tivéssemos que conviver, obrigatoriamente, com a pior realidade que existe para alguns: o ‘eu real’. É aquela história, “deixa seus problemas em casa e vai para o trabalho” – durante a pandemia não foi possível fugir. Então, a sociedade se vê estressada não apenas pelo programa, mas sim porque o programa testa e traz uma prova de qual é a sociedade que nós estamos vivendo hoje em dia e nos questiona a discutir sobre.

6. Qual a diferença na vida de quem consegue praticar a empatia e de quem não consegue?
A diferença de quem pratica ou não a empatia, primeiro, está em saber separar o que que é empatia e o que que é simpatia. Pessoas simpáticas são aquelas que querem dar opinião em tudo, fazem comentários para tentar ajudar, mas apenas falam e não praticam. As pessoas empáticas se colocam no lugar das outras, elas perguntam “o que eu posso fazer para te ajudar?”. Por que a maioria das pessoas não praticam empatia? Porque a empatia requer, de fato, que você realmente se importe com o outro, não somente se preocupar, mas se importar e querer ajudar! E a simpatia não, a simpatia é a famosa “pose pra foto”, é a famosa política da boa vizinhança, onde tecnicamente alguém está preocupado com alguém, mas na prática não está. A diferença de quem consegue praticar a empatia está nisso, em ser pessoas que realmente se importam com as outras, em estar realmente interessado em contribuir, apoiar e incentivar para que todos nós alcancemos cada vez mais a felicidade.

7. De uns tempos para cá a empatia passou a ser menos praticada ou mais praticada?
Com certeza menos praticada, a consequência é o que temos visto no mundo, onde tecnicamente você precisa aparentar ser feliz, supostamente existe um modelo para tudo, um padrão de beleza, riqueza, sabedoria, felicidade e as pessoas vão se encaixando nesse padrão, é mais importante quem tem mais curtidas, quem tem mais seguidores, e por aí vai, aquela história de “cada um por si e Deus por todos”, faz com que as pessoas se coloquem cada vez menos no lugar das outras. Na própria família, no próprio ambiente profissional e no ambiente de convívio social, nos últimos tempos ficou escancarado a falta da empatia. Mas tem um ponto positivo, tudo isso trouxe para debate a necessidade da tal empatia. A empatia é uma necessidade, antigamente ela era uma estratégia, as pessoas que queriam se sobressair se tornavam mais empáticas, hoje não, é uma necessidade! Ou nos tornamos cada vez mais empáticos ou o mundo acabará com todos cegos, é importante saber que por mais que estejamos em carros diferentes, todos nós estamos no mesmo caminho, para um mundo melhor.

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